Como fazer um Boletim de Ocorrência Online (sem sair de casa)
Tomar a decisão de denunciar um agressor é um dos momentos de maior coragem e tensão na vida de uma mulher. Muitas vezes, o medo de ir até uma delegacia física — o receio de ser vista entrando no prédio, a vergonha de expor a intimidade para estranhos ou a impossibilidade de sair de casa sem levantar suspeitas — atua como uma barreira que silencia o grito de socorro. Felizmente, a tecnologia avançou para se tornar uma aliada da justiça. Hoje, na grande maioria dos estados brasileiros, é possível registrar o Boletim de Ocorrência (B.O.) pela internet, através das Delegacias Virtuais. Essa ferramenta garante que o relato oficial da violência tenha a mesma validade jurídica do documento feito presencialmente, mas com uma camada extra de proteção e discrição.
Na Rede Violeta, incentivamos o uso dessa ferramenta como um primeiro passo vital para romper o ciclo da violência e documentar o histórico de abuso. O B.O. Online não é apenas um registro burocrático; ele é a prova material de que a violência ocorreu e é o documento gatilho para solicitar Medidas Protetivas de Urgência. Neste artigo, vamos segurar sua mão virtualmente e guiá-la por esse processo. Vamos explicar quando essa modalidade é a mais indicada, como verificar a disponibilidade na sua região, o que escrever para que sua denúncia seja robusta e o que fazer depois de clicar em “enviar”. A justiça pode e deve começar onde você estiver, inclusive na segurança (ou no esconderijo) do seu quarto.
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Segurança em primeiro lugar: Por que e quando optar pelo B.O. virtual

Optar pelo Boletim de Ocorrência virtual é uma estratégia de segurança inteligente em diversos cenários, mas exige cuidados digitais específicos. A principal vantagem é a discrição. Você não precisa justificar uma saída de casa, não corre o risco de ser seguida até a delegacia e evita o desgaste emocional imediato de relatar os fatos verbalmente em um balcão, muitas vezes cercada por outras pessoas. É a opção ideal para registrar crimes como ameaça, injúria, calúnia, difamação e vias de fato (agressões que não deixam marcas visíveis graves), ou para documentar uma violência psicológica contínua. Além disso, o registro online permite que você escreva com calma, revise os fatos e organize as datas, algo que o nervosismo do presencial muitas vezes atrapalha.
No entanto, antes de acessar o site da polícia, a sua segurança digital deve ser blindada. Se você divide o computador ou celular com o agressor, ou se ele tem acesso aos seus dispositivos, todo cuidado é pouco. Utilize sempre a “Guia Anônima” ou “Modo Incógnito” do seu navegador (geralmente acessível por Ctrl+Shift+N ou no menu do navegador). Isso impede que o site da delegacia fique salvo no histórico. Se possível, faça o registro de um dispositivo seguro, como o celular de uma amiga de confiança ou um computador do trabalho. Lembre-se também de que o sistema pode enviar um e-mail de confirmação; certifique-se de usar um e-mail ao qual o agressor não tenha a senha, ou apague a notificação imediatamente após salvar o protocolo.
É crucial entender também quando NÃO optar apenas pelo virtual. Se a violência está acontecendo neste exato momento (flagrante), se você sofreu uma agressão física grave que requer socorro médico ou se houve violência sexual (estupro), o B.O. online pode ser um complemento, mas a prioridade deve ser ligar para o 190 (Polícia Militar) ou buscar atendimento hospitalar e presencial. Em casos de violência sexual e física visível, o exame de corpo de delito é fundamental para a materialidade da prova, e isso exige presença física. O B.O. online é excelente para documentar o histórico e crimes sem vestígios físicos imediatos, mas em emergências de vida ou morte, a intervenção policial direta é insubstituível.
Outro ponto importante é a validade jurídica. Existe um mito de que o B.O. feito pela internet “vale menos”. Isso é falso. O documento gerado digitalmente é analisado por um escrivão e um delegado, recebendo chancela oficial. Ele tem fé pública e serve plenamente para iniciar inquéritos e embasar pedidos de divórcio litigioso ou guarda de filhos. Ao escolher essa via, você está acionando o Estado com a mesma força legal, mas usando a tecnologia para preservar sua integridade física e emocional. O sistema foi desenhado para facilitar o acesso à justiça, não para diminuir a gravidade do crime. Use-o como sua arma de defesa silenciosa.
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Segurança em primeiro lugar: Por que e quando optar pelo B.O. virtual
O B.O. virtual não é “menos oficial” que o presencial; ele tem a mesma validade jurídica para iniciar inquéritos e pedidos de medida protetiva. No entanto, a escolha por ele deve ser estratégica:
Quando usar: Para relatar ameaças (áudios, mensagens), injúria, calúnia, difamação, destruição de bens ou violência psicológica. É ideal para criar um histórico de provas contra o agressor sem alertá-lo imediatamente.
Quando NÃO usar (Vá ao presencial ou ligue 190): Se você sofreu violência sexual (estupro) ou agressão física grave recente. Nesses casos, o exame de corpo de delito e o atendimento médico são urgentes e presenciais. Se o agressor estiver na casa com uma arma ou quebrando tudo agora, não abra o site: ligue 190.
⚠️ Protocolo de Segurança Digital:
Navegação Anônima: Antes de começar, abra uma aba anônima (Ctrl+Shift+N no Chrome ou “Nova Janela Privada” no Safari/Firefox). Isso impede que o site da polícia fique no histórico.
E-mail Seguro: O sistema pedirá um e-mail para enviar a cópia do B.O. Não use um e-mail que o agressor tenha a senha. Se necessário, crie um e-mail novo e secreto (ex:
mariasilva.segura@gmail.com) apenas para isso.Print é Prova: Antes de apagar mensagens ou áudios do celular dele por medo, salve cópias em uma nuvem secreta (Google Drive, Dropbox) ou envie para uma amiga de confiança.
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Quais estados permitem: Verificando a disponibilidade na sua região
A maioria dos estados brasileiros já possui integração digital, mas o caminho muda dependendo de onde você mora. Existem dois grandes sistemas:
1. Sistema Nacional (Sinesp / Gov.br)
Muitos estados utilizam a Delegacia Virtual do Ministério da Justiça. Para acessar, você precisará de uma conta Gov.br (a mesma usada para o INSS ou vacina).
Estados Integrados (Lista provável): AC, AL, AM, AP, BA, MA, PI, RN, RO, RR, SE, TO.
Como acessar: Busque por “Delegacia Virtual Sinesp” ou acesse o portal do Ministério da Justiça.
2. Sistemas Estaduais Próprios
Estados com maior volume populacional geralmente têm sites próprios e independentes, muitas vezes com áreas exclusivas para a “Delegacia da Mulher Online”.
São Paulo: Busque “Delegacia Eletrônica SP”. Possui uma aba específica para Violência Doméstica.
Rio de Janeiro: Busque “Dediv (Delegacia Online) RJ”.
Minas Gerais: Busque “Delegacia Virtual MG”.
Rio Grande do Sul: Busque “Delegacia Online RS”.
Paraná, Santa Catarina, Distrito Federal: Todos possuem portais próprios de fácil acesso.
🔍 Se seu estado não está na lista: Vá ao Google e digite exatamente: “Delegacia Virtual Polícia Civil [Sigla do seu Estado]”. Certifique-se de que o site termina em .gov.br (isso garante que é o site oficial do governo).
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O que escrever: Como narrar os fatos sem se perder
O campo “Histórico” ou “Descrição dos Fatos” é o coração da sua denúncia. Um delegado lerá isso para decidir se abre o inquérito. Não escreva com pressa.
Roteiro do Relato Perfeito:
Cabeçalho Mental: Comece com QUANDO, ONDE e QUEM.
Ex: “No dia 25/01/2026, por volta das 20h, na minha residência…”
A Ação Principal: Descreva o que ele fez de forma direta, usando os verbos da ação.
Ex: “Ele quebrou meu celular, me empurrou contra a parede e disse que me mataria se eu saísse.” (Evite: “Ele ficou nervoso”. Diga o que ele fez quando ficou nervoso).
Histórico (Fundamental): O delegado precisa saber se isso é rotina.
Ex: “Esta não é a primeira vez. Ele já me agrediu verbalmente no mês passado e controla meu dinheiro há um ano.”
Testemunhas e Provas: Cite se alguém viu ou ouviu.
Ex: “Minha vizinha do apartamento 202 ouviu os gritos. Tenho prints das ameaças no WhatsApp.”
Pedido de Medida Protetiva: Em muitos estados (como SP e RS), há um “botão” ou caixa para marcar se você quer a Medida Protetiva. Se não tiver, escreva no texto: “SOLICITO MEDIDAS PROTETIVAS DE URGÊNCIA pois temo pela minha integridade física.”
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O dia seguinte: Como acompanhar e validar
Ao clicar em “Enviar”, o processo não acabou.
O Número de Protocolo: O site vai gerar um número provisório. Anote esse número em um lugar seguro (na agenda do trabalho, no rascunho de um e-mail secreto). Não confie apenas na memória.
A Validação (Deferimento): Um policial vai ler seu relato. Se estiver tudo certo, você receberá (geralmente por e-mail) o Boletim de Ocorrência Oficial (com brasão do estado e número definitivo).
Atenção: Se o relato estiver confuso, eles podem pedir para você ir à delegacia ou complementar as informações. Monitore o e-mail que você cadastrou.
A Medida Protetiva: Se você solicitou a medida, o delegado encaminhará o pedido para um Juiz, que tem 48h para decidir. Em alguns estados, você pode acompanhar isso pelo site do Tribunal de Justiça com o número do processo.
Não conte ao agressor: O B.O. é sua ferramenta de defesa. Não use o fato de ter feito o B.O. como ameaça numa briga (“eu fiz um B.O. contra você!”). Isso pode acelerar a fúria dele. Deixe que a intimação oficial chegue até ele (ou que a polícia o aborde), enquanto você busca um lugar seguro.





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